Algo está prestes a acontecer! Na última sexta-feira (27), a cantora nipo-americana Mitski presenteou novamente os ouvidos de seus fãs e do mundo ao lançar seu oitavo álbum de estúdio “Nothing’s About to Happen to Me”. A estreia ocorre após um intervalo de três anos desde o seu projeto anterior, intitulado “The Land is Inhospitable So Are We”, e conta com 12 faixas compostas pela cantora, com produção de Patrick Hyland.
E era uma vez a Tansy House
Em “Nothing’s About to Happen to Me”, a cantora apresenta uma narrativa atravessada pelo delírio de uma personagem. Percebida como desviante aos olhos da sociedade, ela está reclusa em uma casa desarrumada, na qual sua maturidade lírica surge com uma força cortante.
É a partir da criação dessa figura que somos apresentados ao seu novo universo. Ele é composto por um estilo com diversas referências à literatura e à arquitetura do período gótico vitoriano. Alguns exemplos disso são as histórias de horror de Shirley Jackson, o livro “O papel de parede amarelo” de Charlotte Perkins Gilman e o documentário “Grey Gardens”.
Nesse cenário, a casa, batizada com o nome de Tansy House, ela se caracteriza por uma arquitetura que mescla elementos da arquitetura gótica medieval. Aliás, ela não compõe o mosaico de inspirações no simples papel de ambiente físico, mas manifesta-se como um personagem fundamental para o desenvolvimento da história fabulada por Mitski.
Sobre o álbum
Ao mesmo tempo que a artista traz uma mistura de sonoridades conhecidas, ela também apresenta características não utilizadas anteriormente pela artista. Vemos isso na inserção de elementos do gênero country nas faixas “In a Lake” e “Rules”. Por outro lado, também temos tons de bossa nova, apresentados de maneira suave em” I’II Change For You”. Mesmo com a novidade, isso pode gerar uma sensação de estranhamento para fãs habituados aos seus discos anteriores.
Além disso, Mistki não recusou em implementar a presença de instrumentos estabelecidos como marcadores de sua carreira. A cantora traz solos cativantes de guitarra e baixo, em “Where’s My Phone” e “That White Cat”, remetendo influências de seu consagrado álbum “Puberty 2”.
A essência do disco
Além disso, a sonorização não foi a única base que transpareceu o diferencial do projeto, no qual adotou-se um cuidado lírico essencial. Em meio a desilusão perante ao estado de caos do mundo moderno, Mitski utiliza a sua persona para versar sobre relacionamentos, solidão e questões ligadas à existência, ocasionando, através desse processo, um movimento de revelação mais profundo de si mesma.
Ao escolher não abandonar a névoa melancólica que permeia as letras da sua conjuntura artística, a cantora reconhece a situação obscura na qual nos encontramos – como seres humanos – e propõe um mergulho na espiral do inconsciente, sem, no entanto, deixar de abordar isso com um senso de humor, por vezes assombroso.
Prova disso é a presença contida em grande parte das músicas, da figura mais temida ao longo da evolução humana: a Morte. Durante a jornada do álbum, a palavra aparece em diferentes estrofes do eu lírico, o que gera uma série de significados possíveis para cada faixa.
Se em “The Land is Inhospitable and So Are We” o ambiente em que o eu lírico se encontra é retratado como algo inconcebível para se viver e a sociedade, “Nothing’s About to Happen to Me” emerge com as consequências do primeiro, demarcadas pelo impulso de isolamento do corpo social e um sentimento de fuga em busca de refúgios secretos e imateriais dentro de nossas próprias mentes.
Uma nova era
Ou seja, o lançamento de “Nothing’s About to Happen to Me” marca o retorno de uma nova era da artista. Assim, o sentimento que permanece é o de experienciar um passeio por fragmentos dos trabalhos mais decisivos de sua carreira.
Através de uma voz que transita entre o angelical e o colérico, Mitski induz o ouvinte a refletir sobre questões profundamente humanas, dentre as quais, muitas vezes, não haverá uma resposta concreta. O que resta, então, é abraçar as brechas da estranheza e da fantasia que habitam em nossas raízes interiores. Se interessou pela premissa do álbum? Corre para dar o play!










