Vamos admitir, todo mundo já sonhou em ver seus jogos favoritos ganhando vida nos telões do cinema, ou como seria ver aquelas fases que você jogou tanto e os inimigos que derrotou ganhando vida nas telonas. Eu, por exemplo, sei disso muito bem, durante anos tudo o que eu queria era ver um filme do Sonic.
Mas você também já deve ter ouvido falar da “maldição” dos filmes baseados em jogos que, por muito tempo, transformou adaptações em verdadeiros desastres. Com o passar dos anos, porém, mais e mais jogos fizeram o salto para o cinema, acumulando sucessos de bilheteria e provando que podem, sim, ser bem representados nas telonas.
Com a chegada de “Super Mario Galaxy – O Filme” aos cinemas, vamos revisitar o legado das adaptações de jogos e tentar entender os mistérios dessa maldição.
Dois encanadores do Brooklin
Vamos voltar um pouco no tempo, aos anos 90, auge do Super Nintendo e do Mega Drive, a rivalidade entre Mario e Sonic. Além disso, não podemos esquecer do surgimento de inúmeras franquias de videogame que são populares até os dias de hoje. Querendo assegurar seu domínio no mercado e popularizar ainda mais suas franquias, a Nintendo decidiu dar o salto para o cinema com o encanador italiano mais famoso do mundo.
Vale dizer que, até 1993, diversas franquias de videogame, incluindo as da própria Nintendo, já haviam ganhado séries animadas voltadas para o público infantil e até histórias em quadrinhos, mas ainda não tinham um filme para chamarem de seu.

Desesperados para tirar o filme do chão, a Nintendo encontrou os diretores Annabel Jankel e Rocky Morton, conhecidos por Max Headroom, e bom… o resto é história.
GAME OVER
Com total controle criativo sobre o roteiro, Annabel Jankel e Rocky Morton transformaram o que eram jogos simples e divertidos, sobre um encanador salvando uma princesa. Em um filme de ação em uma dimensão distópica, onde humanos evoluíram dos dinossauros, o Reino dos Cogumelos se tornou uma cidade sombria repleta de boates e crimes, e Bowser, a tartaruga meio dragão, se tornou um ser humano que quer a princesa para destruir dimensões.

No fim, nem preciso dizer que o filme lançado em 1993 foi um desastre, fracassando em bilheteria e se afogando em críticas negativas. Assim, se criou a suposta “maldição”, onde estúdios pegariam a IP de uma franquia de jogos só pelo nome em si, mas iriam usar isso como fachada para criar outra história, um outro universo, desconsiderando o material original, para, na visão dos produtores, tornar o filme mais comercial, mesmo que ainda utilizasse o nome do jogo.
Vale dizer que, apesar do fracasso de Super Mario Bros. (1993), muito pouco disso impactou diretamente os jogos. Mario já era a franquia mais popular dos videogames, e ajudava o fato de que o filme quase nada tinha de semelhante aos jogos. Mas, por consequência do filme, a Nintendo passou décadas sem uma adaptação de videogame nos cinemas.
Finish Him!
Durante o restante dos anos 90, outros jogos fizeram o salto para as telonas, em especial os jogos de luta, que estavam em seu auge na época. “Street Fighter – A Batalha Final”, estrelado por Jean-Claude Van Damme, chegou em 1994 e, novamente, apesar das roupas e dos nomes dos personagens, pouco o filme trazia dos elementos dos jogos, sendo mais um filme de ação e espionagem no estilo da carreira de Van Damme naquele período.
Por outro lado, Mortal Kombat, lançado em 1995 e dirigido por Paul W. S. Anderson, já se saiu um pouco melhor, trazendo figurinos, cenários, personagens e uma história mais fiel aos jogos que adaptava. Além disso, possui uma trilha sonora tão marcante que acabou sendo incorporada à própria franquia.

Década do Horror
Entre 2000 e 2010, adaptações de videogame para os cinemas se tornaram mais tímidas, com os estúdios optando por franquias que permitiam realizar filmes mais baratos, já que ninguém queria um fracasso no nível do filme de Super Mario Bros.
“Lara Croft: Tomb Raider” (2001), estrelado por Angelina Jolie, e Max Payne (2008), estrelado por Mark Wahlberg, ajudavam a pintar essa imagem de filmes que, se tivessem um ou outro elemento dos jogos, o suficiente para levar alguns fãs aos cinemas, e fossem baratos de se fazer, já estava de bom tamanho. Por outro lado, com o sucesso dos filmes de terror, diversas franquias de jogos do gênero ganharam filmes para as telonas.
“Resident Evil: O Hóspede Maldito” (2002), novamente dirigido por Paul W. S. Anderson, se provou uma grata surpresa. Apesar de se desvincular drasticamente do material original, conseguiu mesclar ação e horror em um filme que conquistou centenas de fãs e rendeu 5 sequências. Aliás, “Terror em Silent Hill” (2006) também adaptava o primeiro game da franquia de terror japonesa. Mesmo sem a recepção de “Resident Evil”, hoje é lembrado por seu roteiro e ambientações fiéis aos games, sendo considerado um clássico cult.

Pikachu, eu escolho você!
Entre 2010 e 2020, o cinema havia mudado bastante. Filmes baseados em quadrinhos traziam para as telonas todas as cores e magia direto das páginas para as telonas, com Hollywood entendendo que o público estava mais do que aberto para a fantasia e extravagância dessas histórias e claro que os filmes baseados em jogos também sofreriam mudanças.
Filmes como “Warcraft – O Encontro de Dois Mundos” (2016) e “Tomb Raider: A Origem” (2018) mostravam que estúdios estavam cada vez mais dispostos a levar o material original a sério. No entanto, o sucesso de “Pokémon: Detetive Pikachu” (2019) mostrou que tava na hora de levar o gênero ao próximo nível.

Sim, Pokémon não era estranho a adaptações, nem ao cinema, tendo um anime a décadas. Por outro lado, a adaptação do game Detective Pikachu, lançado em 2016 para o Nintendo 3DS, provou o impossível, provou que havia lugar para fidelidade e que os fãs estariam lá para responder.
Trazer essas criaturas à vida em um cenário realista não foi fácil, mas a equipe de “Pokémon: Detetive Pikachu” conseguiu com um nível de fidelidade impressionante. Esse trabalho mostrou que já estava mais do que na hora de um certo ouriço azul dar as caras nas telonas.
Gotta Go Fast
“Sonic the Hedgehog” é uma franquia que dispensa apresentações, sendo o rival direto de Mario e um dos personagens mais populares de todos os tempos. Digamos que os fãs mais do que queriam vê-lo nos cinemas. A Sega tentou, desde o surgimento da franquia, em 1991, levar o personagem aos cinemas, com diversas tentativas que nem chegaram a se concretizar. Inclusive, até uma participação especial no filme “Detona Ralph” (2012), mas tudo isso estava prestes a mudar.

“Sonic – O Filme” chegaria em 2019, sendo assim como “Pokémon: Detetive Pikachu”, um híbrido entre live action e animação. No elenco, nada menos que Jim Carrey no papel do arqui-inimigo Doutor Robotnik. Nem preciso dizer que todo mundo estava empolgado.
Empolgação essa que morreu no momento em que a Paramount Pictures lançou o primeiro trailer do filme, revelando uma criatura que era tudo, menos o Sonic.

Enredo original
O trailer tinha tudo o que a suposta “maldição” dos filmes baseados em jogos trazia. Um personagem que pouco lembrava o original, um universo que nada lembrava o do jogo e a tentativa de tornar o filme mais comercial. Não apenas fãs da franquia, mas jogadores ao redor do mundo protestaram online, alguns até criando seus próprios redesigns do Sonic para o filme e oferecendo ajuda à produção. A mensagem era simples, estava na hora dos jogos serem levados a sério.
Em questão de dias, algo chocante aconteceu. A Paramount Pictures anunciou o adiamento do filme para 2020 e se comprometeu a alterar o design do Sonic. Foi um movimento nunca antes visto em Hollywood, um estúdio voltar atrás e refazer drasticamente um filme praticamente completo, passando confiança para o público e honrando o legado da franquia.
“Sonic – O Filme” estreou em fevereiro de 2020, semanas antes do lockdown ao redor do mundo por conta da pandemia de COVID-19. Os fãs apareceram, a crítica recebeu bem o longa e ele conquistou uma das melhores recepções para uma adaptação de videogame até então, marcando, para muitos, o fim da “maldição”.

Com o sucesso de “Sonic – O Filme” e suas sequências, a Nintendo ganhou confiança para se aventurar novamente nos cinemas. Um exemplo é “Super Mario Bros. – O Filme”, lançado em 2023 e produzido pelo estúdio de animação Illumination. O longa ultrapassou a marca de um bilhão dólares em bilheteria e trazendo toda a magia e aventura do material original para uma nova geração. Outras franquias também seguiram esse caminho, com “Five Nights at Freddy’s: O Pesadelo Sem Fim” (2023) e mais recentemente “Um Filme Minecraft” (2025).
Ou seja, a “maldição” ficou para trás. Hoje, os fãs podem ficar mais tranquilos ao ver seus jogos favoritos sendo representados de forma fiel. Com a chegada de “Super Mario Galaxy – O Filme”, é seguro dizer que as adaptações de games no cinema vieram para ficar.










