Imagine decidir atravessar o Oceano Atlântico Sul sozinho, dentro de um pequeno barco a remo projetado por você mesmo? Parece roteiro de cinema, mas aconteceu de verdade, e agora essa história foi levada para as telonas em “100 Dias”.
O Festival Teen recebeu um convite para conferir a pré-estreia de “100 Dias”, filme que inspira sua trama na história do navegador brasileiro Amyr Klink e chega aos cinemas em 29 de outubro de 2026. Com direção de Carlos Saldanha e protagonismo de Filipe Bragança, o longa toma como base o livro “Cem Dias Entre Céu e Mar” e acompanha a histórica travessia que Amyr realizou em 1984, quando partiu da Namíbia em direção ao Brasil a bordo de um barco a remo. Mas já podemos adiantar uma coisa, sem spoilers: a história vai muito além de sobreviver em alto-mar.
Ao longo de “100 Dias”, a direção coloca o espectador praticamente dentro do barco com Amyr. Chuva, rádio, comida desidratada, mapas, coordenadas, registros feitos à mão e os pequenos objetos levados de casa ajudam a construir uma experiência em que cada detalhe ganha importância.
Enquanto quilômetros são percorridos pelo mar, outra viagem também é realizada: a que acontece dentro da cabeça do personagem. Memórias da infância, da família e das escolhas que o levaram até ali aparecem ao longo do filme e ajudam a explicar de onde surgiu a vontade de realizar algo que, para muita gente, parecia impossível.
A história trabalha de forma delicada com a diferença entre solidão e saudade. Estar fisicamente sozinho não significa necessariamente sentir-se sozinho, a saudade existe e é mostrada quase como uma força capaz de ajudar o personagem a continuar.
Medo, acaso e a decisão de seguir em frente
O filme poderia facilmente apresentar “100 Dias” apenas como uma história sobre coragem, mas escolhe um caminho mais interessante onde o medo não desaparece, ele se transforma. Ao longo da travessia, o que antes o público poderia ver apenas como medo passa a se tornar respeito e confiança. Ninguém pode controlar o oceano, os imprevistos aparecem e o acaso surpreende Amyr constantemente.
Algumas situações são enfrentadas com planejamento, outras exigem adaptação. Em certos momentos, até uma mudança de coordenadas pode fazer toda a diferença. O filme também revela que uma jornada desse tamanho reúne contrastes, alternando dias difíceis, noites de chuva, silêncio e cansaço com pequenas recompensas. Até um banho salgado ou um encontro inesperado no meio do caminho ganham outro peso.
Uma das frases mais marcantes apresentadas na história resume esse pensamento:
“Não é pela força, é pela razão. Basta fazer o simples: decidir e ir em frente na direção certa, sempre.”
Mais do que falar sobre remar através do oceano, a frase acaba funcionando como uma reflexão sobre qualquer momento em que alguém precisa tomar uma decisão e continuar, mesmo sem controlar completamente o que vem depois.
Filipe Bragança, Carlos Saldanha e a confiança de Amyr
Interpretar uma pessoa real já é uma responsabilidade enorme. Interpretá-la enquanto ela acompanha de perto a produção torna tudo ainda mais intenso. Filipe Bragança ficou responsável por viver Amyr Klink em “100 Dias”, e durante a conversa realizada na pré-estreia, o próprio Amyr contou que sua mulher, Marina, reconheceu Filipe por sua interpretação de Sidney Magal.
Segundo Amyr, perceber que o ator havia feito um personagem tão diferente ajudou a aumentar sua confiança no trabalho de Filipe. Por isso, a direção deu uma boa dose de liberdade poética ao ator para encontrar sua própria maneira de interpretar o navegador; essa escolha faz com que o personagem não pareça apenas uma tentativa de imitação.
Com Carlos Saldanha, porém, a dinâmica foi diferente. Amyr brincou que o diretor praticamente “trancou a porta da liberdade”, já que foi extremamente rigoroso para manter a história próxima do que realmente aconteceu. E essa combinação entre liberdade na interpretação e cuidado com os acontecimentos reais parece ter garantido o sucesso do resultado.
A estética também chama atenção. O filme valoriza cadernos, mapas, registros feitos à mão e objetos utilizados durante a viagem, criando uma sensação quase artesanal. Em meio à imensidão do oceano, são justamente os pequenos detalhes que passam a contar a história.
Mais do que chegar ao destino
Talvez a grande questão de “100 Dias” não seja apenas como alguém consegue atravessar um oceano. A pergunta pode ser ainda mais simples: o que faz alguém decidir partir?
A travessia se apresenta como uma experiência física, mas também emocional, onde os ciclos da história parecem conversar entre si. A chuva está presente em diferentes momentos, mensagens recebidas pelo rádio funcionam como sinais e a proximidade do destino começa a ganhar outro significado.
Em certo momento, a viagem passa a carregar um sentimento contraditório e muito humano: sempre querer partir, sem necessariamente saber se queria chegar… E talvez seja justamente essa ideia que permita que “100 Dias” converse com qualquer pessoa, mesmo com quem nunca pensou em atravessar um oceano: nem toda grande viagem acontece no mar, normalmente o desafio está simplesmente em escolher uma direção, confiar na decisão e continuar.
“100 Dias” chega aos cinemas brasileiros em 29 de outubro de 2026. Vá assistir, fique com a vontade de também navegar por cem dias e conheça a história de Amyr Klink!










