Há algo desconfortável em “Precisamos Falar” desde o início, e não é apenas o crime que move a história. Um thriller psicológico dirigido por Pedro Waddington e Rebeca Diniz, adaptado do best-seller “O Jantar”, de Herman Koch, o longa acompanha dois casais que descobrem que seus filhos adolescentes causaram a morte de uma mulher em situação de rua.
A partir daí, o filme transforma o jantar em um campo minado cheio de conflitos: entre pais e filhos, entre diferentes ideias de mundo e principalmente, o que uma família diz defender e aquilo que aceita fazer para proteger a eles mesmos.
Ética e família
No centro da trama está Michel, interpretado por Thiago Voltolini. Racista, cruel e acostumado a transformar tudo em brincadeira, o adolescente parece enxergar o mundo como um lugar sem consequências. Em casa, encontra adultos dispostos a ignorar seus atos e pensamentos, proteger sua imagem e evitar que a verdade atravesse a porta de casa.
O pai de Michel, vivido por Alexandre Nero, tem uma personalidade explosiva. O filme menciona episódios anteriores de perda de controle entre eles, um caso envolvendo uma estudante cotista, mas não se aprofunda completamente na condição emocional do personagem. Essa escolha deixa uma pergunta no ar: o comportamento de Michel nasceu apenas da influência dos amigos e internet ou também de um ambiente doméstico onde agressividade e intolerância foram tratadas como algo normal e por vezes que demonstrasse ate sinais de superioridade?
A decoração do quarto do adolescente resume esse universo. Na parede, uma placa afirma: “Direitos humanos para humanos direitos”. A frase grande e evidente mostra como ele fazia desses pensamentos a sua personalidade, e como todos aos seu redor sabiam daquilo, inclusive seus pais.
Na entrevista ao Festival Teen, Thiago explicou que precisou construir uma camada de humanidade para tornar Michel ainda mais assustador. “Eu acho que eu consegui desligar esse disjuntor, essa ética, dessa moral, acho que não tinha outra opção. Eu acho que para o personagem também virar um pouco mais assustador, eu precisava humanizar ele o máximo possível”, afirmou. A estratégia funciona. Voltolini sustenta o personagem com frieza infantil, como se Michel realmente não entendesse por que suas atitudes são tão graves, nem mesmo quando chega ao ponto de matar outra pessoa.
A vítima fora do centro
A mulher morta não é no centro da narrativa. Depois do acontecimento, o foco se desloca para os adolescentes e para os pais que tentam lidar com as consequências desses atos. Essa escolha parece proposital e coerente com a história: mesmo depois de morrer, a vítima continua sendo apagada, enquanto os jovens privilegiados e suas famílias ocupam todo o espaço.
Ao deixá-la fora, “Precisamos Falar” reproduz a lógica que pretende expor: a vida dela é tratada como um obstáculo no caminho do futuro dos garotos. Assim, a morte vira uma crise familiar, uma ameaça à reputação e um problema a ser administrado.
Nesse sentido, o silêncio em torno da vítima não representa uma falha da narrativa, mas sim uma escolha que reforça seu incômodo. O público percebe como determinadas pessoas podem desaparecer até mesmo quando na realidade são o ponto mais importante e doloroso da história.
Os jovens e a bolha digital
A influência familiar aparece ao lado de outro elemento importante: a internet. Os adolescentes vivem cercados por vídeos, memes, comentários e grupos em que a crueldade se disfarça de humor. O filme sugere que a violência não começa necessariamente no momento do crime. Antes, ela pode aparecer em uma piada, em uma ofensa compartilhada ou na sensação de que, atrás de uma tela, ninguém será responsabilizado.
Thiago Voltolini também contou que uma cena deletada ajudou a pensar sobre esse ambiente digital: “Tinha até uma cena que foi deletada. Era uma cena minha olhando no celular, em um grupo só falando atrocidades, com memes horríveis; todo tipo de minoria era ofendido ali. E isso existe. Então acho que é preciso ligar essa chavinha dentro do que esses jovens consomem e dizer: ‘Espera aí, isso aqui é tão legal assim?’”. A sequência não chegou ao corte final, mas mostra a violência cotidiana e facilidade de acesso a esses conteúdos que o filme tanto tenta expor.
Guilherme Cabral, que interpreta Rick, relacionou o comportamento dos jovens à facilidade de acesso a conteúdos violentos. “Acho que os jovens de hoje em dia estão sendo reflexo de muitas coisas que entram nas mídias, ou até da facilidade com que as informações chegam pela internet, com violência gratuita sendo exposta tão facilmente na frente deles”, afirmou. Na obra, Rick vê o primo como uma inspiração e se deixa levar por essa influência. É mais frágil, mas não é inocente: participa, acompanha e demora muito a romper com o primo Michel e o grupo, abalando sua relação com o irmão Jefferson. Sua trajetória representa aqueles que não iniciam a violência, mas riem dela, e seguem a maré, sem se incomodar com ela.
Cauê Campos, interpretando de Jefferson, chamou atenção para a responsabilidade dos adultos nesse processo. “O dilema também vai para os pais. Aqui estamos falando de uma situação extrema, em que um crime aconteceu, mas existe também o questionamento sobre quando os filhos ainda estão na escola e sobre quando devemos começar a observar e analisar o comportamento deles”, disse.
Um elenco que sustenta o desconforto
Marjorie Estiano é um do pontos altos do núcleo adulto. Sua personagem transita entre a culpa, medo e a tentativa de proteger um filho, independentemente do que é correto ou não. Alexandre Nero entrega um pai agressivo e difícil de decifrar, ainda que o roteiro pudesse aprofundar mais esses conflitos. Emílio de Mello e Hermila Guedes completam perfeitamente o núcleo adulto com atuações que sustentam bem a tensão familiar.
Entre os jovens, Thiago Voltolini se destaca. A raiva pelo personagem nasce cedo e permanece até o fim, resultado de uma atuação que não tenta suavizar o personagem ruim que Michel é. Guilherme Cabral encontra bons caminhos para mostrar as hesitações de Rick, sendo um personagem “em cima do muro” enquanto Cauê Campos mesmo sendo testemunha do crime também é uma das vítimas de Michel, se posicionando contra e vendo a problemática no garoto.
Julia Svacinna ainda falou sobre a relação criada entre os colegas durante as filmagens: “Eu tenho um carinho muito grande pelos meninos. Apesar de já conhecer o Gui e o Cauê, o filme aprofundou isso; agora eles viraram tipo meus irmãos. São pessoas por quem tenho muito carinho e de quem gosto muito de estar perto”. A declaração ajuda a mostrar o vínculo fora das telas, enquanto sua atuação contribui para dar mais humanidade ao núcleo jovem.
Thiago também falou sobre a responsabilidade de ocupar um espaço jovem em uma produção desse tamanho. “Não podia ser ruim, não podia ser mediano, não podia ser óbvio. Não existe isso de atuação mirim. Somos atores, a gente estudou, a gente trabalha”, afirmou. O núcleo jovem não funciona como simples apoio aos adultos, mas como parte essencial da discussão.
Um final controverso
O desfecho surpreende ao mudar o que parecia encaminhado, ampliando a indignação de quem assiste e reforçando como a vida pode ser injusta. Ao mesmo tempo, o final aberto não oferece plena certeza sobre o que aconteceu, especialmente com o núcleo dos pais, e deixa espaço para diferentes interpretações. Mais do que responder a todas as perguntas, “Precisamos Falar” prolonga a discussão sobre privilégio, impunidade e responsabilidade.
Estreado em 24 de setembro nos cinemas do Brasil, o filme é um convite em hora certa para o público assistir, refletir e continuar essa conversa depois da sessão.










