Há dores que não precisam ser ditas para ocupar todos os cômodos de uma casa! É a partir dessa ideia que “Nosso Segredo” constrói uma história sobre família, ausência e sentimentos que permanecem mesmo quando ninguém consegue colocá-los em palavras.
Dirigido e roteirizado por Grace Passô, o longa-metragem brasileiro chega aos cinemas em 27 de agosto, depois de conquistar o principal prêmio da mostra competitiva nacional do 54º Festival de Cinema de Gramado. Além disso, a produção levou os Kikitos de Melhor Fotografia e Melhor Direção de Arte. Agora, o Festival Teen traz uma crítica com spoilers sobre o drama brasileiro.
O que o filme retrata?
“Nosso Segredo” acompanha uma família negra que tenta reorganizar a própria vida depois da morte do pai. A perda, porém, não aproxima necessariamente os personagens. Pelo contrário, cada um encontra uma maneira diferente de lidar com o luto.
Gilson (Robert Frank) se refugia no trabalho como motorista. Suely (Ju Colombo) tenta manter a rotina da casa por meio das tarefas domésticas. Guto (Flip) procura uma fuga na rua e na boemia. Já Grazi (Jéssica Gaspar) se fecha cada vez mais em si mesma.
No meio deles está Tutu (Efraim Santos), o filho mais novo. Atento ao que acontece ao seu redor, ele percebe que existe algo estranho no andar de cima da casa, enquanto os adultos parecem preferir ignorar os sinais.
A partir das descobertas de Tutu, o cotidiano da família começa a ganhar contornos fantásticos. Sons, rachaduras, vazamentos e outras manifestações transformam a casa em um espaço cada vez mais inquietante.
Antes de chegar aos cinemas, o filme passou pelo Festival Internacional de Cinema de Berlim e pelo Festival de Gramado, um dos eventos mais tradicionais do cinema brasileiro. Em 2026, a produção conquistou três Kikitos e chamou atenção especialmente pela fotografia de Wilssa Esser e pela direção de arte de Lucas Osório.
Uma família tentando lidar com a ausência
“Nosso Segredo” é um filme lento. E é importante dizer isso antes de qualquer coisa.
A história não corre para explicar seus personagens ou revelar o mistério. Grace Passô prefere acompanhar a rotina da família, os silêncios e os pequenos acontecimentos. Para quem procura uma narrativa mais movimentada, esse ritmo pode ser cansativo. Por outro lado, a escolha permite observar como cada personagem enfrenta o luto.
Gilson trabalha. Suely cuida da casa. Guto procura a rua. Grazi se distancia. Enquanto isso, Tutu observa.
Essa diferença é uma das forças do longa. O filme entende que não existe uma única maneira de viver uma perda. Algumas pessoas falam, outras se isolam e outras simplesmente tentam continuar como se nada tivesse acontecido.
Além disso, a simplicidade do cotidiano aproxima a história de uma realidade brasileira reconhecível. A casa, os objetos, os cômodos e as relações familiares ajudam a construir um ambiente íntimo. A fotografia acompanha essa proposta com enquadramentos que valorizam os espaços e os personagens dentro deles. Assim, a própria casa parece carregar aquilo que os moradores não conseguem dizer.
É justamente nesse ponto que o fantástico ganha força.
Afinal, qual é o “segredo”?
A partir daqui, a crítica revela elementos importantes da história.
O segredo do título finalmente ganha uma forma inesperada: há um hipopótamo escondido dentro da casa.
A princípio, a imagem parece absurda. Porém, quanto mais a história avança, mais claro fica que a criatura representa algo muito maior. O pai morreu, mas a ausência dele continua ocupando espaço naquela família. O hipopótamo funciona, então, como uma representação daquilo que todos tentam esconder ou evitar.
As rachaduras, os vazamentos e as mudanças na casa reforçam essa ideia. O espaço físico passa a refletir uma dor que os personagens não conseguem enfrentar diretamente. Nesse processo, Tutu se torna fundamental. O caçula funciona como uma ponte entre os familiares porque não aceita simplesmente deixar as coisas de lado. Enquanto os irmãos encontram maneiras diferentes de fugir da perda, ele encara aquilo que os adultos preferem não enxergar.
Um dos momentos mais delicados acontece quando a família compartilha uma gravação de áudio do pai. Não se trata de uma grande declaração, mas de uma simples lista de materiais de construção.
Depois da morte, entretanto, aquela mensagem ganha outro significado. Ouvir a voz dele se torna uma forma de recuperar uma lembrança que ainda pertence a todos.
A cena resume bem a proposta do filme: o luto não desaparece, mas pode deixar de ser uma experiência solitária. Tutu ajuda a aproximar pessoas que passaram boa parte da história dividindo a mesma casa, mas vivendo emocionalmente distantes.
Veredito final
O ritmo lento de “Nosso Segredo” também ganha outro sentido. A demora para revelar o que está acontecendo permite que o espectador compreenda primeiro a distância entre aqueles personagens e, só depois, perceba como o elemento fantástico se conecta a essa dor.
O longa pode exigir paciência, mas recompensa quem aceita acompanhar seus silêncios. Grace Passô encontra na simplicidade de uma família brasileira uma maneira sensível de falar sobre ausência, memória, afeto e a dificuldade de seguir em frente.
No fim, o filme deixa uma ideia simples: algumas dores não desaparecem quando deixamos de falar sobre elas. Elas apenas encontram outro lugar para morar!










